Partindo para a segunda entrevista da série, temos agora o aluno de
fonoaudiologia e pesquisador em lingüística Julio Cesar Cavalcanti. As perguntas são as mesmas do volume II da série.
MeuOlhoMeu:
O que você considera ser princípio? A sua definição pessoal...
J. C. Cavalcanti:
Princípio é aquilo que rege a vida de
uma pessoa
MeuOlhoMeu:
De que forma?
J. C. Cavalcanti:
De forma a influenciar em suas ações,
comportamento e tomada de Decisão.
Algo que ilustra muito bem
isso, é quando o Apóstolo Paulo disse: Tudo me é lícito, mas nem tudo me convêm .
MeuOlhoMeu:
E você acredita que seus princípios
possam influenciar diretamente suas ações de que maneira?
J. C. Cavalcanti:
De uma maneira "refletida" ou
até mesmo “irrefletida”, pode ser tanto consciente como inconsciente os entremeios
por trás deste mecanismo de autoconsciência.
MeuOlhoMeu:
No caso você usa seus princípios como
algo que você possa consultar para "ter certeza" e não como simples
exemplo?
J. C. Cavalcanti:
Não exatamente. Princípio, neste caso princípio ético, é algo que não se precisa consultar se você realmente tem consigo. Ele é refletido ao passo que a tomada de decisão não se dá por acaso, e irrefletido pelo fato de que nem sempre estamos aptos a pôr sob medida
o que está por detrás de nossas ações. Algumas vezes elas simplesmente ocorrem,
sem que sejamos abeis para descrever “conscientemente” o que as motivou; muitos
estudos em psicanálise são destinados a explicar esses tipos de atitude.
MeuOlhoMeu:
Esses
princípios, mudando um pouco, vc acha q a todos têm a mesma forma de influencia..?
J. C. Cavalcanti:
'Eu' acredito que somos mais sensíveis
àqueles que são evidentemente fortalecidos em nossa cultura e no grupo social em que estamos inseridos. Como por exemplo... Não matar, é um princípio quase que geral, embora nem todas
pessoas façam uso deste (estou aqui me referindo a assassinos, obviamente). Já, não ter relação sexual antes do casamento, é um princípio mais
restrito ao passo que não são todos os indivíduos que o consideram tal qual
"um princípio"...
MeuOlhoMeu:
Você acha q princípios também são
renegados quando o lucro vem a frente?
Por exemplo...
J. C. Cavalcanti:
O princípio é aquilo que te faz não aceitar
tudo que vem pela frente. Um filósofo muito conhecido chamado Kant, disse certa
vez que uma ação ela só é virtuosa, quando nada pode tirar dela sua virtude. Na
verdade, pessoas que assumem alguns princípios como seus e mais adiante
renega-os por qualquer coisa que o valha, nunca os ostentou. Achava que aquilo fosse um princípio em sua vida, mas a verdade é que nunca o foi.
MeuOlhoMeu:
Há aqueles casos em q a pessoa coloca a culpa na raiva... Ou em momentos
de angústia, ou algum tipo de sofrimento para subjugar seus princípios... O que
considera?
J. C. Cavalcanti:
Isso é possível de ocorrer. Kant pregava que existem estágios de virtude. De ações pouco virtuosas às mais virtuosas, e que se avança e amadurece com o passar do tempo; concordo com ele.
Existe o que chamamos de Obrigação prima facie. É aquilo que deve
permanecer, quando um princípio se choca com outro. Exemplo: não roubo... Mas minha mãe está doente e precisa de remédio para sobreviver urgentemente. peço ajuda às
pessoas, tento de tudo, mas não consigo, pois
o remédio é por demais caro, vem à minha cabeça, furtar. Furto para garantir a vida de minha mãe. "Garantir
a vida da mãe” é uma obrigação prima facie nesse contexto, é um princípio que neste momento, em confronto com outros, se sobrepõe.
Ademais, existe ainda a religião, que se
apresenta muitas vezes como a obrigação Prima Facie de muitas pessoas,
submetidas a leis superiores a si mesmas e a quaisquer condições possíveis; o
que considero absolutamente legítimo.
MeuOlhoMeu:
Então, os princípios podem ser
erradicados a partir de algum estímulo?
J. C. Cavalcanti:
Princípios nunca são erradicados. Abstem-se de um princípio em
confronto com outro em dado momento. Mas nunca se aniquila-o. O
que pode acontecer é de que um princípio venha enfraquecer com o desenvolver da
história, mas ainda assim, existem as culturas mais conservadoras que prezaram
de o manter no fluxo do tempo. O ato de
matar sempre foi considerado desumano desde que o mundo é mundo, esse princípio
por evitar efeitos danosos nunca haverá de ser erradicado. Sabe o que creio
mesmo? Creio que os princípios são tão gerais como são individuais, existem
atitudes que assumem papel de valor para mim, mas que passam por despercebidas
a outros.
Agradeço a participação de J. C. Cavalcanti na entrevista e no post. A pedido do entrevistado cito a frase do grande Lao-Tsé: “Com
o bom sou bom, mas mesmo com quem não é
bom sou bom, pois boa é a virtude."
Findam-se então, as entrevistas, logo mais trarei um post com a análise dos dados colhidos e aqui apresentados.
Esta série também pode ser vista no blog MeuOlhoMeu.
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